Pressão alta, diabetes, colesterol elevado, excesso de peso, doença renal e doença do coração. Muita gente trata cada um desses problemas com um especialista diferente, como se fossem histórias separadas.

Mas não são. Eles se alimentam uns dos outros.

No consultório, vejo isso todos os dias: o paciente chega pela alteração na função renal e, quando olhamos o quadro completo, encontramos também resistência à insulina, pressão fora do alvo e um risco cardiovascular que ninguém tinha calculado.

Foi justamente para dar nome a essa conexão que surgiu o conceito de síndrome cardio-reno-metabólica (em inglês, cardiovascular-kidney-metabolic syndrome, ou síndrome CKM). Neste artigo, você vai entender o que ela é, como é classificada e o que as diretrizes internacionais mais recentes recomendam para proteger rins e coração ao mesmo tempo.


O que é a síndrome cardio-reno-metabólica?

Em 2023, a American Heart Association reconheceu formalmente como uma única entidade a interligação entre obesidade, diabetes, doença renal crônica e doenças cardiovasculares [1,2].

A ideia central é simples: esses problemas compartilham os mesmos mecanismos de origem. Na maioria das pessoas, tudo começa com o excesso de gordura corporal ou com uma gordura “disfuncional”, que produz substâncias inflamatórias e leva à resistência à insulina [1,2].

A partir daí, forma-se um ciclo:

  • A resistência à insulina leva ao aumento da glicose, da pressão e das gorduras no sangue;
  • Esses fatores agridem os vasos e o filtro dos rins;
  • O rim doente, por sua vez, acelera a doença do coração.

Em 2026, a própria KDIGO, organização internacional que produz as principais diretrizes de nefrologia do mundo, publicou uma revisão mostrando como suas recomendações já cobrem os diferentes componentes dessa síndrome. O título do trabalho resume bem a mensagem: o rim está “no meio” dessa história [1].


Por que o rim está no centro

A doença renal não é apenas uma consequência do diabetes e da pressão alta. Ela também amplifica o risco cardiovascular.

Segundo a revisão da KDIGO, o rim doente favorece problemas no coração por vários caminhos: acúmulo de substâncias tóxicas para o coração, inflamação crônica, anemia, alterações de cálcio e fósforo, aterosclerose acelerada e dificuldade de regular água, sais minerais e acidez do sangue [1].

Na prática, isso significa que uma pessoa com doença renal crônica tem mais chance de morrer de um problema do coração do que de chegar à diálise.

Os números mostram o tamanho do desafio. No mundo, cerca de 850 milhões de pessoas vivem com doença renal crônica e quase 589 milhões de adultos têm diabetes. A doença renal é hoje a terceira causa de morte que mais cresce no planeta [1].


Os estágios da síndrome cardio-reno-metabólica

A síndrome é dividida em cinco estágios, que ajudam a entender em que ponto a pessoa está e o que deve ser feito [1,2]:

  • Estágio 0 — sem fatores de risco: peso, glicose, pressão, colesterol e função renal normais. O foco é manter a saúde.
  • Estágio 1 — excesso ou disfunção da gordura corporal: sobrepeso, obesidade, aumento da circunferência abdominal ou pré-diabetes.
  • Estágio 2 — fatores de risco metabólicos ou doença renal: hipertensão, triglicerídeos altos, síndrome metabólica, diabetes tipo 2 e/ou doença renal crônica de risco moderado a alto.
  • Estágio 3 — doença cardiovascular silenciosa: alterações no coração ou nos vasos ainda sem sintomas, ou doença renal de risco muito alto.
  • Estágio 4 — doença cardiovascular estabelecida: infarto, insuficiência cardíaca, AVC, doença arterial periférica ou fibrilação atrial.

Um detalhe importante: ter doença renal crônica já coloca a pessoa, no mínimo, no estágio 2 da síndrome [1]. O rim, portanto, é um marcador precoce de risco para todo o organismo.


Como identificar: dois exames simples fazem a diferença

A doença renal costuma ser silenciosa nas fases iniciais. Por isso, a KDIGO insiste que pessoas em risco sejam avaliadas com dois exames complementares [1,3]:

  1. Creatinina no sangue, usada para calcular a taxa de filtração glomerular estimada (TFGe), que mostra quanto o rim consegue filtrar;
  2. Relação albumina/creatinina na urina (RAC), que mede a perda de albumina, uma proteína que não deveria escapar pelo filtro renal.

A revisão da KDIGO é enfática: a importância da albuminúria “não pode ser subestimada”. Ela é essencial para o diagnóstico e a classificação da doença renal, está fortemente associada a desfechos renais e cardiovasculares e pode ser reduzida com tratamento [1]. Mesmo assim, na maioria das pessoas em risco, esse exame ainda não é pedido como deveria [1].

Um grande estudo com dados de 27,5 milhões de pessoas mostrou que tanto a queda da filtração quanto o aumento da albuminúria se associam, de forma independente, a maior risco de infarto, AVC, insuficiência cardíaca, fibrilação atrial, internações e morte [1,4].

Se você quer entender como esses dois exames definem a gravidade da doença, explico em detalhes no artigo sobre os estágios da doença renal crônica.

Quem deve fazer esses exames: pessoas com diabetes, hipertensão, obesidade, doença cardiovascular ou histórico familiar de doença renal.


O que as diretrizes KDIGO recomendam

A abordagem proposta pela KDIGO tem três pilares: detecção precoce, tratamento personalizado do risco renal e cardiovascular, e cuidado multidisciplinar [1].

1. Estilo de vida: a base de tudo

Para pessoas com doença renal crônica, as diretrizes sugerem [1,3]:

  • Atividade física moderada, somando pelo menos 150 minutos por semana, ou o nível compatível com a tolerância de cada um;
  • Sódio abaixo de 2 g por dia, o equivalente a menos de 5 g de sal de cozinha;
  • Proteína em torno de 0,8 g por kg de peso por dia nas fases mais avançadas da doença renal (estágios G3 a G5), sempre com orientação individualizada;
  • Dieta com mais alimentos de origem vegetal e menos ultraprocessados;
  • Controle do peso e abandono do tabagismo.

Se você quer saber mais sobre esse tema, veja também o artigo sobre alimentação na doença renal.

2. Pressão arterial

Para adultos com doença renal crônica que não estão em diálise, a KDIGO sugere uma meta de pressão sistólica abaixo de 120 mmHg, quando tolerada, medida de forma padronizada [1,5].

Essa meta é ajustada individualmente. Em pessoas frágeis, com risco de quedas ou com queda de pressão ao levantar, pode ser necessário um alvo menos rigoroso [1].

3. Diabetes

A diretriz recomenda uma meta de hemoglobina glicada individualizada, entre menos de 6,5% e menos de 8%, equilibrando o benefício do controle da glicose com o risco de hipoglicemia, que aumenta conforme a função renal cai [1,6].

4. Medicamentos que protegem rim e coração ao mesmo tempo

Esta é talvez a maior revolução da última década. Hoje existem medicamentos que reduzem, ao mesmo tempo, a progressão da doença renal e as complicações cardiovasculares [1]:

  • IECA ou BRA (bloqueadores do sistema renina-angiotensina): indicados para pessoas com doença renal e albuminúria, com ou sem diabetes;
  • Inibidores de SGLT2 (as “gliflozinas”): indicados para adultos com doença renal e diabetes tipo 2, com albuminúria elevada ou com insuficiência cardíaca;
  • Antagonista não esteroidal do receptor mineralocorticoide (finerenona): para pessoas com diabetes tipo 2, doença renal e albuminúria persistente apesar do bloqueio do sistema renina-angiotensina;
  • Agonistas do receptor de GLP-1: para pessoas com diabetes tipo 2, doença renal, principalmente obesos;
  • Estatinas: para a maioria dos adultos com doença renal a partir dos 50 anos, e para mais jovens com risco cardiovascular elevado.

A revisão destaca ainda que novos estudos mostraram benefícios renais e cardiovasculares dos agonistas de GLP-1 também em pessoas sem diabetes, com sobrepeso ou obesidade, o que deve ampliar suas indicações nas próximas atualizações das diretrizes [1].

Um ponto que costumo reforçar com meus pacientes: se o potássio subir com alguns desses remédios, a orientação da KDIGO é tratar o potássio, e não simplesmente suspender a medicação protetora. Pessoas que têm esses remédios reduzidos ou interrompidos evoluem pior [1].

A escolha de cada medicamento, a dose e a combinação dependem da função renal, das outras doenças e dos riscos de cada paciente. Nenhum deles deve ser iniciado ou suspenso por conta própria.

5. Cuidado integrado

Quem vive com a síndrome cardio-reno-metabólica costuma precisar de vários especialistas: nefrologista, cardiologista, endocrinologista e médico da atenção primária [1].

O problema é que o cuidado tende a ser fragmentado, cada um olhando para “o seu órgão”. A KDIGO defende justamente o contrário: uma abordagem integrada, em que as decisões conversam entre si [1].

A revisão também destaca um papel específico da nefrologia: descobrir a causa exata da doença renal. Nem toda doença renal em uma pessoa com diabetes ou pressão alta é causada por eles, e um diagnóstico preciso pode mudar o tratamento [1].


Quando procurar um nefrologista

Vale buscar avaliação especializada se você:

  • Tem diabetes, hipertensão ou obesidade e nunca fez o exame de albumina na urina;
  • Recebeu um resultado de albuminúria ou proteinúria alterada;
  • Tem queda da taxa de filtração (TFGe abaixo de 60) ou aumento da creatinina;
  • Tem doença cardiovascular e alteração em qualquer exame renal;
  • Usa vários medicamentos e quer entender quais protegem de fato seus rins e seu coração;
  • Tem histórico familiar de doença renal.

Quanto mais cedo a doença renal é identificada, maior a chance de estabilizá-la, e as diretrizes mais recentes já falam não só em frear a progressão, mas em buscar a remissão da doença renal [1]. Para começar, veja as orientações práticas sobre como proteger seus rins.


Perguntas frequentes

A síndrome cardio-reno-metabólica é uma doença nova?

Não exatamente. As ligações entre metabolismo, rins e coração são conhecidas há décadas. O que é novo é tratá-las como uma única síndrome, com estágios definidos, para estimular o diagnóstico precoce e o tratamento integrado.

Quem tem pressão alta ou diabetes já tem a síndrome?

Pelos critérios da American Heart Association, sim: hipertensão e diabetes tipo 2 colocam a pessoa no estágio 2 da síndrome. Isso não significa doença grave, mas indica que é hora de avaliar rins e coração de forma mais completa.

Meu exame de creatinina está normal. Isso quer dizer que meus rins estão bem?

Não necessariamente. A creatinina pode estar normal mesmo quando já há perda de albumina na urina, um sinal precoce de lesão renal. Por isso as diretrizes recomendam sempre avaliar creatinina e albuminúria juntas.

Dá para reverter a síndrome cardio-reno-metabólica?

Nos estágios iniciais, mudanças de estilo de vida e perda de peso podem melhorar muito os fatores de risco. Nos estágios mais avançados, o tratamento combinado pode frear a progressão e reduzir o risco de complicações. A resposta depende do estágio e de cada pessoa.

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui consulta médica individualizada. Cada caso deve ser avaliado por um nefrologista.


Fontes

  1. Levin A, Bansal N, de Boer IH, et al. The kidney in the middle: Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) guidelines address multiple key components of cardiovascular-kidney-metabolic syndrome. Kidney Int. 2026. doi:10.1016/j.kint.2026.03.031
  2. Ndumele CE, Rangaswami J, Chow SL, et al. Cardiovascular-kidney-metabolic health: a presidential advisory from the American Heart Association. Circulation. 2023;148:1606-1635.
  3. Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) CKD Work Group. KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney Int. 2024;105(4S):S117-S314.
  4. Writing Group for the CKD Prognosis Consortium, Grams ME, Coresh J, et al. Estimated Glomerular Filtration Rate, Albuminuria, and Adverse Outcomes: An Individual-Participant Data Meta-Analysis. JAMA. 2023;330:1266-1277.
  5. Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) Blood Pressure Work Group. KDIGO 2021 Clinical Practice Guideline for the Management of Blood Pressure in Chronic Kidney Disease. Kidney Int. 2021;99(3S):S1-S87.
  6. Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) Diabetes Work Group. KDIGO 2022 Clinical Practice Guideline for Diabetes Management in Chronic Kidney Disease. Kidney Int. 2022;102(5S):S1-S127.

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