Você acordou com os olhos inchados e pensou em alergia. Nas pernas, o inchaço não passa, e a urina anda cheia de espuma. Essa combinação merece atenção, porque pode ser a síndrome nefrótica.

É uma condição que vejo com frequência no consultório. Muitas vezes o paciente passa meses tratando o sintoma errado antes de chegar ao diagnóstico correto.

Neste artigo, explico o que acontece nos rins, como o diagnóstico é feito e quais sinais não devem ser ignorados.


O que é a síndrome nefrótica?

Os rins têm milhões de pequenos filtros, os glomérulos. Dentro deles, células especiais chamadas podócitos funcionam como uma peneira fina: deixam passar água e resíduos, mas seguram as proteínas no sangue.

Na síndrome nefrótica, os podócitos são lesados e a peneira fica “larga demais”. As proteínas escapam para a urina em grande quantidade, o que chamamos de proteinúria maciça. [1,2]

Com a perda de proteínas, aparecem quatro alterações características:

  • Proteinúria maciça: excesso de proteína na urina;
  • Hipoalbuminemia: queda da albumina, a principal proteína do sangue;
  • Edema: inchaço causado pelo líquido que sai dos vasos;
  • Hiperlipidemia: aumento de colesterol e triglicerídeos.

A síndrome nefrótica não é uma doença única. É um conjunto de sinais que indica que os filtros dos rins estão lesados, e a causa precisa ser investigada.


Como o diagnóstico é feito?

O diagnóstico combina os sintomas com exames de sangue e de urina.

Em adultos, os critérios são proteinúria acima de 3,5 g em 24 horas (ou relação proteína/creatinina na urina equivalente), albumina no sangue abaixo de 3,5 g/dL e edema. [1,4]

Em crianças, seguem-se os critérios da Associação Internacional de Nefrologia Pediátrica (IPNA), que definem os limites de proteinúria e albumina de acordo com o tamanho da criança. O edema pode ser usado como critério quando a dosagem de albumina não está disponível. [3]

Por isso, o exame de urina de 24 horas ou a relação proteína/creatinina em amostra isolada são peças-chave. Um exame de urina comum, sozinho, não fecha o diagnóstico.


Quais são os sintomas?

O sinal mais comum é o inchaço, que costuma ser gravitacional, ou seja, aparece onde o líquido se acumula pela ação da gravidade:

  • ao redor dos olhos, principalmente pela manhã (frequentemente confundido com alergia);
  • nas pernas e nos pés;
  • na região genital, em meninos e meninas.

Em casos mais intensos, o líquido pode se acumular no abdômen (ascite) e ao redor dos pulmões (derrame pleural), causando desconforto abdominal e falta de ar. [4,5]

Outro sinal típico é a urina espumosa, que não desaparece após dar descarga.

Inchaço nos olhos que “vai e volta” e não melhora com antialérgico merece uma avaliação da urina.


Quais são as causas?

A síndrome nefrótica pode ser primária, quando a doença nasce no próprio rim, ou secundária, quando é consequência de outra condição.

Causas primárias mais comuns

  • Doença de lesões mínimas: é a principal causa em crianças, e a maioria dos casos responde bem ao tratamento com corticoide. [3,4]
  • Glomeruloesclerose segmentar e focal (GESF): mais frequente em adultos.
  • Nefropatia membranosa: também mais frequente em adultos.

Causas secundárias

  • diabetes mellitus;
  • lúpus eritematoso sistêmico;
  • amiloidose;
  • infecções, incluindo algumas infecções parasitárias e virais;
  • alguns medicamentos e neoplasias;
  • alterações genéticas.

Nos adultos, a grande maioria dos casos é primária, e a causa secundária é minoria. [4] Ainda assim, ela precisa ser sempre descartada, porque muda o tratamento. Outras glomerulopatias, como a nefropatia por IgA, também podem se apresentar com síndrome nefrótica. [4]


Quais são as complicações?

Além do incômodo do inchaço, a síndrome nefrótica pode trazer riscos importantes, e é por isso que o acompanhamento não deve esperar. [1,4]

  • Trombose: o rim perde na urina proteínas que ajudam a controlar a coagulação, e o sangue pode formar coágulos nas veias e, mais raramente, nas artérias.
  • Infecções: com a perda de proteínas de defesa, o organismo fica mais vulnerável, principalmente a bactérias.
  • Colesterol e triglicerídeos altos: aumentam o risco cardiovascular quando a condição se prolonga.
  • Piora da função dos rins: a lesão aguda é menos comum, mas pode ocorrer, e a doença de base pode evoluir para doença renal crônica se não for tratada.

O risco de trombose e de infecção é avaliado caso a caso. Nem todo paciente precisa dos mesmos cuidados, e essa decisão é do nefrologista.

Como investigamos a causa?

Descobrir a causa é a etapa que define o tratamento. Além dos exames de sangue e de urina, o nefrologista pode indicar a biópsia renal, um procedimento em que se retira um pequeno fragmento do rim para análise em microscópio. Se quiser entender como ela é feita e o que esperar antes e depois, leia meu artigo completo sobre biópsia renal.

Nem sempre ela é necessária. Em crianças com quadro típico, as diretrizes atuais não recomendam biópsia ou teste genético de rotina no início. A biópsia fica reservada para quem não responde ao corticoide ou apresenta características atípicas. [2,3] Em adultos, a biópsia costuma ser recomendada com mais frequência, porque a causa muda a conduta. [4]


Como é o tratamento?

O tratamento depende da causa e é sempre individualizado. Em geral, ele combina:

  • medidas de suporte: redução do sal na alimentação, diuréticos para o inchaço e medicamentos que protegem o rim e reduzem a perda de proteína; [4]
  • tratamento da causa: em algumas doenças, corticoides ou outros imunossupressores; em causas secundárias, o controle da doença de base. [1,2]

O objetivo é reduzir a perda de proteína, controlar os sintomas, prevenir complicações e preservar a função dos rins.


Quando procurar um nefrologista

Procure avaliação se você apresentar:

  • inchaço persistente nos olhos, nas pernas ou no abdômen;
  • urina com muita espuma que se repete;
  • ganho de peso rápido, sem mudança na alimentação;
  • alteração de proteína na urina ou de albumina em algum exame;
  • dor ou inchaço em uma perna, falta de ar ou febre durante um quadro de inchaço, que precisam de avaliação sem demora.

Quanto antes a causa é identificada, mais ampla é a escolha de tratamento e maior a chance de proteger os rins.


Perguntas frequentes

Síndrome nefrótica tem cura?

Depende da causa. Em muitas crianças com doença de lesões mínimas, a doença responde bem ao tratamento e pode entrar em remissão, embora possa haver recaídas. Em adultos, o resultado varia conforme a doença de base. Por isso, o acompanhamento com nefrologista é fundamental. [2,3]

Urina com espuma sempre significa síndrome nefrótica?

Não. A espuma pode ter outras explicações, como a força do jato ou a concentração da urina. Quando ela é persistente e vem acompanhada de inchaço, vale medir a proteína na urina para esclarecer.

Crianças também têm síndrome nefrótica?

Sim, e é bastante característica na infância. O inchaço nos olhos é frequentemente confundido com alergia, e o diagnóstico exige exame de urina e dosagem de albumina. [3]

Toda pessoa com síndrome nefrótica precisa fazer biópsia renal?

Não necessariamente. Em crianças com quadro típico, ela costuma ser dispensável no início. Em adultos, é recomendada com mais frequência, para definir a causa e orientar o tratamento. [2-4]

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui consulta médica individualizada. Cada caso deve ser avaliado por um nefrologista


Fontes

  1. Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) Glomerular Diseases Work Group. KDIGO 2021 Clinical Practice Guideline for the Management of Glomerular Diseases. Kidney Int. 2021;100(4S):S1-S276.
  2. Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) Nephrotic Syndrome in Children Work Group. KDIGO 2025 Clinical Practice Guideline for the Management of Nephrotic Syndrome in Children. Kidney Int. 2025;107(5S):S241-S289.
  3. Trautmann A, Boyer O, Hodson E, et al.; International Pediatric Nephrology Association. IPNA clinical practice recommendations for the diagnosis and management of children with steroid-sensitive nephrotic syndrome. Pediatr Nephrol. 2023;38(3):877-919.
  4. Kodner C. Diagnosis and management of nephrotic syndrome in adults. Am Fam Physician. 2016;93(6):479-485.

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