No fim de agosto de 2026, a Anvisa aprovou o registro do Vanrafia (cloridrato de atrasentana) no Brasil, indicado para adultos com nefropatia primária por imunoglobulina A que têm risco de progressão da doença.

É uma notícia que chegou rápido aos meus pacientes. Na semana seguinte, já ouvi a mesma pergunta no consultório mais de uma vez: “doutora, esse remédio novo serve para mim?”

A resposta honesta é: para alguns pacientes, sim — e é um avanço real. Mas ela vem com nuances importantes, que raramente aparecem nas manchetes. Escrevi este texto para explicar, de forma clara, o que a ciência já nos mostrou até aqui.


O que é a nefropatia por IgA

A nefropatia por IgA (também chamada de doença de Berger) é a doença glomerular primária mais comum do mundo. Ela acontece quando anticorpos do tipo IgA, com uma alteração na sua estrutura, formam depósitos dentro dos filtros do rim — os glomérulos.

Esses depósitos desencadeiam inflamação. Com o tempo, a inflamação vira cicatriz, e a cicatriz reduz a capacidade de filtração.

O diagnóstico exige biópsia renal: não existe exame de sangue ou urina que confirme a doença sozinho. A biopsia renal é o exame que mais gera medo entre os pacientes, apesar de atualmente ser um procedimento muito seguro — se você foi orientado a fazer, vale entender antes como é feita a biópsia renal, o preparo e os riscos reais.

O sinal de alerta mais comum é a presença de proteína na urina (proteinúria) — urina que espuma demais, de forma persistente, merece investigação.


Por que a proteinúria é o alvo do tratamento

Quanto mais proteína o rim perde na urina, mais rápido ele tende a perder função ao longo dos anos. Por isso, praticamente todo tratamento moderno da nefropatia por IgA tem um objetivo em comum: derrubar a proteinúria e mantê-la baixa.

As diretrizes internacionais KDIGO 2025 definiram metas mais rigorosas do que as anteriores: proteinúria abaixo de 0,5 g por dia, e idealmente abaixo de 0,3 g por dia.

Para chegar lá, o tratamento é construído em camadas — controle da pressão, medicamentos que reduzem a hiperfiltração e, quando indicado, terapias que atuam sobre a produção do próprio anticorpo IgA.


O que é a atrasentana e como ela age

A atrasentana é um antagonista seletivo do receptor de endotelina A — um comprimido de uso oral, tomado uma vez ao dia.

A endotelina é uma substância que contrai os vasos sanguíneos. Dentro do rim, quando ela age em excesso, aumenta a pressão dentro do glomérulo, favorece inflamação e fibrose e faz o filtro deixar passar mais proteína.

A atrasentana bloqueia esse receptor de forma seletiva. O efeito prático é reduzir a pressão dentro do filtro renal e diminuir o vazamento de proteína para a urina.

Ponto importante: ela não substitui os medicamentos que o paciente já usa. Ela é somada ao tratamento de base — inibidores do sistema renina-angiotensina (IECA ou BRA) e, quando indicado, inibidores de SGLT2.


O que o estudo ALIGN mostrou

Toda a aprovação se apoia no ALIGN, um estudo de fase 3, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, feito em pacientes com biópsia comprovada e proteinúria persistente apesar do tratamento otimizado.

Redução da proteinúria

Na análise interina pré-especificada, publicada no New England Journal of Medicine com os primeiros 270 pacientes, 36 semanas de atrasentana reduziram a proteinúria em 38,1%, contra 3,1% no grupo placebo — uma diferença de 36,1 pontos percentuais, estatisticamente significativa.

Foi esse resultado que motivou a aprovação acelerada nos Estados Unidos, em abril de 2025, e que fundamenta o registro brasileiro.

Preservação da função renal em 2,5 anos

Os resultados finais, publicados no The Lancet, acompanharam os pacientes por cerca de 2 anos e meio. Em 136 semanas, a queda da função renal foi de 7,5 mL/min/1,73 m² com atrasentana contra 9,9 mL/min/1,73 m² com placebo.

A diferença de 2,4 mL/min/1,73 m² é clinicamente relevante — mas ficou por muito pouco fora da significância estatística definida antes do estudo começar (p=0,057). Considerando a velocidade anual de perda de função, a diferença foi de 1,4 mL/min/1,73 m² por ano a favor do tratamento.

Traduzindo: o resultado aponta na direção certa e é consistente em várias medidas, mas não é o “resultado definitivo” que fecharia a discussão. Esse tipo de nuance é exatamente o que separa uma decisão bem tomada de uma decisão apressada.

Combinação com inibidores de SGLT2

Em um subgrupo exploratório de 64 pacientes que também usavam inibidor de SGLT2, o benefício sobre a função renal apareceu de forma ainda mais marcada, com diferença de 9,1 mL/min/1,73 m² em 136 semanas. Como o número de pacientes é pequeno, o achado precisa ser lido com cautela.

Um segundo estudo, o ASSIST, testou justamente essa combinação em desenho cruzado e confirmou uma redução adicional de proteinúria de 25,3% em 12 semanas — mesmo em pacientes já otimizados com as duas classes de medicamento.


Segurança: o que se sabe até agora

O perfil de segurança foi favorável nos dois estudos, com taxas de eventos adversos gerais e graves semelhantes entre atrasentana e placebo, e sem sinais novos de alerta.

Os pontos que exigem acompanhamento:

  • Retenção de líquidos — mais frequente com atrasentana (14% contra 12% no seguimento final), mas sem casos que levassem à interrupção do tratamento no ALIGN, e sem casos de insuficiência cardíaca ou edema grave.
  • Anemia por hemodiluição — mais comum no grupo tratado (8,3% contra 2,4%), geralmente por diluição do sangue e não por perda de ferro.
  • Gravidez — antagonistas do receptor de endotelina não podem ser usados na gestação. Mulheres em idade fértil precisam de orientação específica e método contraceptivo eficaz.

Nenhum desses pontos inviabiliza o tratamento. Todos exigem monitoramento programado — peso, pressão, hemoglobina e função renal em intervalos definidos.


Onde a atrasentana se encaixa no tratamento hoje

Aqui está a informação que considero mais importante deste artigo.

As diretrizes KDIGO 2025 foram elaboradas com evidências revisadas até agosto de 2024 — antes, portanto, da publicação dos dados finais do ALIGN. Por isso a atrasentana ainda não consta nas recomendações formais do KDIGO, ao contrário dos inibidores do sistema renina-angiotensina, dos inibidores de SGLT2, da budesonida de liberação direcionada e da sparsentana, que já têm recomendações específicas.

Isso não significa que o medicamento não sirva. Significa que ele é uma opção nova, aprovada por agências reguladoras com base em desfecho de proteinúria, cuja posição exata no algoritmo de tratamento ainda está sendo construída.

Na prática, a decisão passa por perguntas como:

  • A proteinúria continua alta apesar do tratamento de base otimizado?
  • Qual o risco individual de progressão, considerando função renal, achados da biópsia e tempo de doença?
  • Existe retenção de líquido, insuficiência cardíaca ou anemia importante que contraindique?
  • Há desejo de gestação no horizonte próximo?
  • Faz mais sentido priorizar outra terapia disponível antes desta?

Não existe resposta padronizada. Existe a resposta certa para cada paciente.


Quando procurar um nefrologista

Se você tem diagnóstico de nefropatia por IgA, esta é uma boa hora para reavaliar seu tratamento — não necessariamente para trocá-lo, mas para saber se ele está de fato otimizado e se as metas atuais de proteinúria estão sendo alcançadas.

Procure avaliação especializada se:

  • Você tem diagnóstico de nefropatia por IgA e não sabe qual é o seu valor atual de proteinúria;
  • A proteína na urina permanece acima de 0,5 g por dia apesar da medicação;
  • Sua função renal vem caindo nos exames de rotina;
  • Você notou urina espumosa persistente, sangue na urina ou inchaço;
  • Você tem diagnóstico confirmado e nunca discutiu as opções terapêuticas mais recentes.

Uma consulta com nefrologista permite mapear seu risco individual de progressão e definir, com base nos seus exames e na sua biópsia, qual combinação faz sentido para o seu caso.


Perguntas frequentes

A atrasentana já está disponível nas farmácias do Brasil? A Anvisa aprovou o registro em agosto de 2026, o que é o passo regulatório necessário. A disponibilidade efetiva nas farmácias, o preço e a eventual cobertura por planos de saúde ou pelo SUS seguem cronogramas próprios e podem levar mais tempo. Vale conversar com seu médico sobre o cenário atual no momento da sua consulta.

A atrasentana substitui o losartana, o enalapril ou a dapagliflozina? Não. Ela é usada em conjunto com o tratamento de base, não no lugar dele. Nos estudos, todos os pacientes seguiam usando inibidores do sistema renina-angiotensina, e parte deles também usava inibidor de SGLT2.

Ela cura a nefropatia por IgA? Não. Nenhum tratamento disponível hoje cura a doença. O objetivo é reduzir a proteinúria e desacelerar a perda de função renal, protegendo o rim ao longo dos anos e adiando ou evitando a necessidade de diálise.

Se o resultado de função renal não deu significativo, o medicamento funciona mesmo? A redução da proteinúria foi consistente e estatisticamente significativa nos dois estudos. Sobre a função renal, o efeito foi na direção esperada e clinicamente relevante, mas ficou por muito pouco fora do limiar estatístico definido previamente. É um resultado promissor que ainda será complementado por novos dados e pelas próximas atualizações de diretrizes.

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui consulta médica individualizada. Cada caso deve ser avaliado por um nefrologista.


Fontes

  1. Heerspink HJL, Jardine M, Kohan DE, Lafayette RA, Levin A, et al.; ALIGN Study Investigators. Atrasentan in Patients with IgA Nephropathy. N Engl J Med. 2025;392(6). doi:10.1056/NEJMoa2409415
  1. Heerspink HJL, et al.; ALIGN Study Investigators. Atrasentan in patients with IgA nephropathy (ALIGN): final 2·5-year results from a randomised, double-blind, placebo-controlled, phase 3 trial. Lancet. 2026. doi:10.1016/S0140-6736(26)00960-8
  1. Heerspink HJL, et al. Efficacy and Safety of Atrasentan in Patients with IgA Nephropathy Receiving Sodium-Glucose Cotransporter 2 Inhibitors: Placebo-Controlled, Crossover Trial (ASSIST). J Am Soc Nephrol. 2026. doi:10.1681/ASN.0000001076
  1. Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) Glomerular Diseases Work Group. KDIGO 2025 Clinical Practice Guideline for the Management of Immunoglobulin A Nephropathy (IgAN) and Immunoglobulin A Vasculitis (IgAV). Kidney Int. 2025.
  1. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Novo medicamento para nefropatia primária por imunoglobulina A é aprovado pela Anvisa. Brasília: Anvisa; 31 ago. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/novo-medicamento-para-nefropatia-primaria-por-imunoglobulina-a-e-aprovado-pela-anvisa
  1. Novartis. Novartis receives FDA accelerated approval for Vanrafia® (atrasentan) for proteinuria reduction in primary IgA nephropathy. Comunicado à imprensa. 2 abr. 2025.

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