Se você convive com diabetes, provavelmente já ouviu que a doença “pode afetar os rins”. Mas o que isso significa na prática? É uma pergunta que ouço quase toda semana no consultório — e a resposta é mais tranquilizadora do que costuma parecer, desde que se aja cedo.

O diabetes é hoje a principal causa de doença renal crônica avançada no mundo. Aqui no Brasil o retrato é igualmente sério: no Censo Brasileiro de Diálise de 2024, diabetes e hipertensão apareceram empatados como as principais causas de doença renal entre pacientes em diálise, respondendo por cerca de 29% dos casos cada — um empate inédito.

O ponto que quero que você leve deste texto é o oposto do medo: a lesão renal do diabetes é silenciosa nas fases iniciais, mas altamente evitável quando detectada a tempo. Vamos entender como isso acontece e o que está sob o seu controle.


O que é a nefropatia diabética?

Nefropatia diabética (ou doença renal do diabetes) é a lesão progressiva dos rins causada pelo excesso de glicose no sangue ao longo dos anos. Ela não aparece de um dia para o outro — costuma se desenvolver de forma lenta e sem sintomas no início, o que a torna traiçoeira.

Nem todo diabético desenvolve a doença: ela ocorre em cerca de 20% a 40% das pessoas com diabetes. Ou seja, ter diabetes aumenta o risco, mas não é uma sentença.


O que acontece dentro dos rins

Cada rim tem cerca de um milhão de minúsculos filtros chamados glomérulos — novelos de vasos sanguíneos finíssimos responsáveis por separar as toxinas que saem na urina daquilo que precisa continuar no sangue.

Quando a glicose fica cronicamente elevada, ela agride a parede desses pequenos vasos. Com o tempo, o filtro perde a capacidade de reter proteínas que deveriam permanecer no corpo. O primeiro sinal mensurável costuma ser o vazamento de pequenas quantidades de albumina na urina — a chamada microalbuminúria.

👉 A microalbuminúria é importante justamente porque aparece antes de a creatinina alterar. Ela é o alarme precoce que nos permite agir enquanto ainda há muito a proteger.

Se nada é feito, esse vazamento aumenta e o dano se estende ao restante do filtro, levando à queda progressiva da função renal — que medimos pela taxa de filtração glomerular (TFG).


Sinais de alerta

O grande desafio é que, nas fases iniciais, a nefropatia diabética não dá sintoma nenhum. Quando os sinais aparecem, a doença geralmente já avançou. Fique atento a:

  • Urina espumosa e persistente (indício de proteína na urina);
  • Inchaço em pernas, tornozelos ou ao redor dos olhos;
  • Pressão arterial elevada e de difícil controle;
  • Cansaço persistente sem causa aparente.

👉 Justamente porque os sintomas chegam tarde, não podemos esperar por eles. O diagnóstico se faz por exames de rotina, não pela presença de queixas.


Como é feito o diagnóstico

O rastreio da nefropatia diabética é simples, barato e feito com exames periódicos que todo paciente diabético deveria realizar:

  • Relação albumina/creatinina na urina (RAC) — detecta a microalbuminúria, o marcador mais precoce;
  • Creatinina sérica — dosagem no sangue usada para estimar a função renal;
  • Taxa de filtração glomerular (TFG) — calculada a partir da creatinina, indica quanto do “filtro” ainda está funcionando.

A combinação desses dois parâmetros — albuminúria e TFG — é o que permite classificar o risco e definir a conduta, seguindo as diretrizes internacionais do KDIGO, referência global em nefrologia.


Prevenção e tratamento: o que realmente muda o rumo

Aqui está a boa notícia. Poucas complicações do diabetes têm ferramentas de proteção tão eficazes quanto a renal. O tratamento se apoia em pilares que se somam:

Controle glicêmico rigoroso — manter a glicose e a hemoglobina glicada nas metas individualizadas reduz o ritmo da lesão.

Controle da pressão arterial — a pressão alta acelera o dano renal; controlá-la é tão importante quanto controlar a glicose.

Medicações com efeito nefroprotetor comprovado — hoje contamos com um verdadeiro arsenal que protege o rim para além do controle do açúcar. As principais classes são:

  • iECA e BRA (inibidores da ECA e bloqueadores do receptor da angiotensina) — a base do tratamento quando há proteína na urina ou pressão alta. Reduzem a proteinúria e retardam a progressão para a falência renal, e devem ser titulados até a dose máxima tolerada.
  • Inibidores de SGLT2 (as “gliflozinas”) — um marco recente: estudos de grande porte como CREDENCE, DAPA-CKD e EMPA-KIDNEY demonstraram que retardam a progressão da doença renal e reduzem o risco de falência dos rins e de eventos cardiovasculares.
  • Finerenona — um antagonista não esteroidal do receptor mineralocorticoide que, nos estudos FIDELIO-DKD e FIGARO-DKD, reduziu a progressão da doença renal e os eventos cardiovasculares em pacientes com diabetes e albuminúria.
  • Agonistas do receptor de GLP-1 (como a semaglutida) — além de melhorarem o controle glicêmico e favorecerem a perda de peso, o estudo FLOW demonstrou proteção renal em pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal.

Acompanhamento nefrológico regular — idealmente iniciado já a partir do diagnóstico de diabetes, para monitorar os exames e ajustar a conduta antes que o dano avance.

👉 Nenhuma dessas medidas é “tamanho único” — e, cada vez mais, elas são combinadas entre si. A escolha, a associação e a dose de cada medicação dependem da sua função renal, das suas outras condições e do seu perfil, por isso a individualização em consulta faz toda a diferença.


Quando procurar um nefrologista

O momento ideal de procurar o nefrologista não é quando os exames já pioraram — é antes disso. Vale marcar uma avaliação se você:

  • Tem diabetes e nunca fez rastreio de função renal;
  • Recebeu um resultado alterado de microalbuminúria, creatinina ou TFG;
  • Tem pressão arterial difícil de controlar;
  • Convive com diabetes há vários anos, mesmo se sentindo bem.

Uma avaliação nefrológica preventiva permite montar, junto com você, um plano para proteger seus rins enquanto ainda há tudo a preservar.


Perguntas frequentes

Toda pessoa com diabetes vai desenvolver problema renal? Não. A nefropatia diabética ocorre em cerca de 20% a 40% dos diabéticos. Com bom controle glicêmico, controle da pressão e acompanhamento adequado, esse risco pode ser reduzido de forma significativa.

Com que frequência devo fazer os exames de função renal? Em geral, uma vez ao ano em diabéticos bem controlados e sem alterações — recomendação alinhada às diretrizes do KDIGO e da ADA. Se já houver alteração detectada, os exames passam a ser mais frequentes. Seu médico irá individualizar essa periodicidade.

A nefropatia diabética tem cura? Não falamos em “cura”, mas em controle — e ele pode ser muito eficaz. Quando a doença é identificada cedo, na fase de microalbuminúria, o tratamento pode estabilizar e, em muitos casos, até reduzir a perda de proteína na urina. Quanto mais precoce a ação, maior a função renal preservada.

Preciso ver um nefrologista mesmo se meu diabetes está controlado? Sim, vale a avaliação. Como a lesão inicial é silenciosa, é possível ter os primeiros sinais nos exames mesmo se sentindo bem e com a glicose em dia. O rastreio periódico é o que permite agir antes dos sintomas.

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui consulta médica individualizada. Cada caso deve ser avaliado por um nefrologista.

Se você tem diabetes, agende uma avaliação nefrológica preventiva com a Dra. Ana Elisa Jorge. Proteger os rins começa com um exame simples — e com a decisão de não esperar pelos sintomas.


Fontes

American Diabetes Association Professional Practice Committee. 11. Chronic Kidney Disease and Risk Management: Standards of Care in Diabetes—2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl. 1):S246–S260.

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Sociedade Brasileira de Diabetes. Manejo da Doença Renal do Diabetes — Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, Ed. 2025.

Sociedade Brasileira de Nefrologia. Censo Brasileiro de Diálise 2024. São Paulo: SBN; 2025.

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