A nefropatia por IgA é a doença glomerular primária mais comum do mundo — e, ainda assim, é pouco conhecida do público em geral. Ela costuma atingir adultos jovens e, por muito tempo, foi vista como uma condição “benigna”. Hoje sabemos que uma parcela relevante dos pacientes evolui para perda progressiva da função renal se não for adequadamente identificada e tratada.

Neste artigo, explico o que é essa doença, como ela se manifesta, como é diagnosticada e o que mudou recentemente no tratamento — a diretriz internacional de referência (KDIGO) passou por uma atualização importante em 2025.


O que é a nefropatia por IgA?

A IgA é um tipo de anticorpo que, nessa doença, se deposita de forma anômala nos glomérulos — as unidades de filtragem dos rins — desencadeando um processo inflamatório local. Com o tempo, essa inflamação repetida pode causar cicatrizes (fibrose) e perda progressiva de néfrons funcionantes.

A causa exata ainda é estudada, mas envolve uma produção anormal de uma forma de IgA (pouco galactosilada) que forma complexos imunes capazes de se depositar no rim.


Quais os sintomas?

O quadro mais característico é:

  • Hematúria macroscópica (sangue visível na urina) que aparece tipicamente 1 a 2 dias após um quadro de infecção de garganta ou respiratória — diferente de outras doenças renais, em que o sangramento surge semanas depois.
  • Episódios recorrentes desse tipo de sangramento ao longo dos anos.
  • Em muitos casos, a doença é descoberta de forma incidental, por hematúria microscópica ou proteinúria em exame de urina de rotina, sem sintomas percebidos pelo paciente.

👉 Esse padrão de sangue na urina associado a infecções respiratórias é um dos sinais mais característicos que levam à suspeita diagnóstica.


Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico de certeza depende de biópsia renal, que identifica os depósitos de IgA nos glomérulos e permite avaliar o grau de atividade inflamatória e de cicatrização já presente — informação essencial para definir o tratamento e estimar o prognóstico.


O que mudou no tratamento

A diretriz KDIGO 2025 para nefropatia por IgA trouxe uma mudança de paradigma na forma de tratar a doença, com duas frentes complementares:

Controle rigoroso da proteinúria, com meta de reduzi-la para menos de 0,5 g/dia (idealmente abaixo de 0,3 g/dia), usando bloqueio otimizado do sistema renina-angiotensina como base do tratamento em praticamente todos os pacientes.

Estratégia 1 — Tratamentos direcionados à causa da nefropatia por IgA
Para pacientes que continuam apresentando perda significativa de proteína na urina, podem ser considerados medicamentos que atuam mais diretamente nos mecanismos envolvidos na nefropatia por IgA.


Budesonida de liberação direcionada (Nefecon): é um corticoide desenvolvido para agir principalmente em uma região específica do intestino, onde parte da IgA anormal relacionada à doença é produzida. No estudo NefIgArd, o tratamento ajudou a preservar a função dos rins em comparação ao placebo. Entre os efeitos colaterais mais frequentes estão inchaço, aumento da pressão arterial e acne.


Corticoides sistêmicos: podem ser considerados quando a budesonida de liberação direcionada não está disponível. No estudo TESTING, o tratamento reduziu em 47% o risco de eventos graves relacionados à progressão da doença renal, mas também aumentou o risco de infecções importantes. Por isso, seu uso exige uma avaliação cuidadosa dos riscos e benefícios.


Micofenolato mofetil (MMF): pode ser utilizado em situações específicas na população chinesa. Atualmente, não existem evidências suficientes para recomendar seu uso de rotina em pacientes de outras etnias.


Hidroxicloroquina: também pode ser considerada em pacientes chineses selecionados que permanecem com maior risco de progressão da doença apesar do tratamento adequado.

Estratégia 2 — Tratamentos para proteger os rins e retardar a progressão da doença
Além de tratar os mecanismos específicos da nefropatia por IgA, é fundamental utilizar medicamentos que diminuam a sobrecarga dos rins e ajudem a preservar sua função ao longo do tempo.


iECA ou BRA: medicamentos utilizados para controlar a pressão arterial e, principalmente, reduzir a perda de proteína pela urina. São uma das bases do tratamento de proteção renal.


Sparsentan: medicamento que bloqueia simultaneamente dois mecanismos envolvidos na lesão renal. No estudo PROTECT, promoveu maior redução da proteinúria e menor perda da função renal ao longo do tempo em comparação à irbesartana. Ele substitui o iECA ou BRA e não deve ser utilizado junto com esses medicamentos.


Inibidores de SGLT2: medicamentos inicialmente desenvolvidos para o diabetes, mas que hoje têm papel importante na proteção dos rins, inclusive em pessoas sem diabetes. Estudos como DAPA-CKD e EMPA-KIDNEY demonstraram redução do risco de progressão da doença renal em pacientes com nefropatia por IgA.

Essa é uma mudança relevante em relação ao que se fazia há poucos anos: hoje o tratamento é mais individualizado e vai além do controle da pressão arterial, atuando também na origem imunológica da doença.


Quando procurar um nefrologista?

Procure avaliação se você já teve episódios de urina com sangue associados a infecções respiratórias, ou se um exame de urina de rotina mostrou sangue ou proteína sem explicação aparente. O acompanhamento nefrológico regular é o que permite identificar cedo os pacientes com maior risco de progressão e iniciar o tratamento correto a tempo.


Perguntas frequentes

A nefropatia por IgA é grave? O curso é muito variável: uma parte dos pacientes tem doença estável ao longo da vida, enquanto outra parte evolui para perda progressiva da função renal. É exatamente essa variabilidade que torna o acompanhamento nefrológico e a biópsia renal importantes — eles ajudam a identificar quem está no grupo de maior risco.

Existe cura para a nefropatia por IgA? Não há cura definitiva, mas o tratamento atual — combinando controle rigoroso da proteinúria com as novas terapias direcionadas — consegue frear significativamente a progressão da doença na maioria dos casos.

Preciso de biópsia mesmo com hematúria leve e isolada? A decisão é individualizada, mas de forma geral a investigação nefrológica é recomendada sempre que há hematúria persistente ou recorrente, para definir se há necessidade de biópsia e tratamento.

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui consulta médica individualizada. Cada caso de nefropatia por IgA deve ser avaliado por um nefrologista.

Fontes

  1. Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO). KDIGO 2025 Clinical Practice Guideline for the Management of IgA Nephropathy (IgAN) and IgA Vasculitis (IgAV).
  2. Heerspink HJL et al. Sparsentan versus irbesartan in patients with IgA nephropathy (PROTECT trial).

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