A Doença Renal Crônica é silenciosa: na maioria das vezes, não dá sintomas até estar em fase avançada. Por isso, prevenção é a palavra-chave. E a boa notícia é que grande parte dos fatores de risco está sob o seu controle.


Movimente-se

O sedentarismo é um dos grandes vilões da saúde renal. A atividade física regular ajuda a controlar pressão arterial, glicemia e peso — três pilares diretamente ligados à saúde dos rins.

A OMS recomenda, por semana: [1]

  • 150–300 min de atividade aeróbica de intensidade moderada (3–6 METs; ex.: caminhada rápida, ciclismo leve), OU
  • 75–150 min de atividade aeróbica de intensidade vigorosa (6–9 METs; ex.: corrida, natação), OU
  • Combinação equivalente de moderada e vigorosa
  • Fortalecimento muscular envolvendo todos os grandes grupos musculares ≥ 2 dias/semana

Para adultos ≥ 65 anos, as metas são semelhantes, com adição de exercícios multicomponentes focados em equilíbrio e força funcional ≥ 3 dias/semana para reduzir risco de quedas.

Impacto na redução de risco: A adesão às metas da OMS está associada a redução de 23–40% no risco de doenças cardiovasculares e de 27–31% na mortalidade por todas as causas.  Existe relação dose-resposta inversa curvilínea — o maior ganho relativo ocorre na transição de sedentarismo para apenas 30 minutos de caminhada diária.


Cuide do peso

A obesidade não afeta apenas o coração e o metabolismo. Ela também está diretamente relacionada à doença renal crônica (DRC) e pode contribuir tanto para o seu aparecimento quanto para a sua progressão.

O que diz o KDIGO 2024?

  • Pessoas com IMC acima de 25 kg/m² apresentam maior risco de desenvolver doença renal crônica e de apresentar piora da função dos rins ao longo do tempo.
  • Para pessoas com obesidade e doença renal crônica, especialmente quando a função dos rins ainda está acima de 30 mL/min/1,73 m², a perda de peso é recomendada como parte dos cuidados para proteger a saúde.
  • Quando a função renal está muito reduzida (abaixo de 30 mL/min/1,73 m²) ou o paciente já realiza diálise, a situação é diferente. Nesses casos, a perda de peso precisa ser avaliada individualmente, pois emagrecer nem sempre traz benefícios e pode estar associado à perda de massa muscular e pior estado nutricional.
  • O IMC não deve ser analisado sozinho. Duas pessoas com o mesmo IMC podem ter quantidades muito diferentes de gordura e músculo. Por isso, também devem ser considerados fatores como circunferência abdominal, composição corporal, doenças associadas e nível de atividade física.
  • Os valores de referência também podem variar conforme a população. Em pessoas de origem asiática, por exemplo, o risco metabólico e renal pode aumentar a partir de um IMC mais baixo, entre 23 e 27,5 kg/m².

E a gordura abdominal?

Diretrizes mais recentes reforçam que onde a gordura se acumula também importa.

A gordura localizada principalmente na região abdominal, chamada de gordura visceral, está particularmente associada ao risco de doenças metabólicas, cardiovasculares e renais.

Por isso, além do peso e do IMC, a circunferência abdominal é uma medida importante na avaliação do risco.

Como referência:

  • IMC ≥ 25 kg/m²: sobrepeso
  • IMC ≥ 30 kg/m²: obesidade

O excesso de peso, especialmente quando acompanhado de acúmulo de gordura abdominal, pode aumentar o risco de desenvolver doença renal e contribuir para sua progressão. Mas o número da balança ou o IMC, isoladamente, não contam toda a história.


Prefira alimentos naturais

Alimentação também é uma forma de cuidar dos rins

Uma alimentação saudável pode ajudar a reduzir o risco de doença renal e proteger a função dos rins ao longo da vida.

As recomendações atuais do KDIGO valorizam uma alimentação variada, com maior presença de alimentos de origem vegetal e menor consumo de alimentos ultraprocessados.

🥗 Prefira alimentos naturais

Frutas, verduras, legumes, feijão, outras leguminosas, cereais integrais, castanhas e sementes devem fazer parte de uma alimentação equilibrada.

Uma dieta com maior participação de alimentos vegetais fornece fibras e outros nutrientes importantes e está associada a benefícios para a saúde metabólica, cardiovascular e renal.

🧂 Cuidado com o excesso de sal

O excesso de sódio favorece o aumento da pressão arterial — e a hipertensão é uma das principais causas de doença renal crônica.

Para pessoas que já têm doença renal crônica, o KDIGO recomenda consumir menos de 2 g de sódio por dia, o equivalente a aproximadamente 5 g de sal de cozinha.

E atenção: grande parte do sódio da alimentação pode estar escondida nos produtos industrializados.

⚠️ Quanto menos ultraprocessados, melhor

Refrigerantes, salgadinhos, biscoitos, macarrão instantâneo, embutidos, carnes processadas, refeições prontas e outros ultraprocessados devem ser consumidos o mínimo possível.

Esses produtos frequentemente apresentam grandes quantidades de sódio, açúcares, gorduras e aditivos, além de substituírem alimentos naturais e nutricionalmente mais adequados.

No contexto da doença renal, alguns produtos também contêm aditivos à base de fósforo e potássio, que podem ser especialmente relevantes para quem já apresenta redução da função dos rins.

🍬 Menos açúcar também protege os rins

O consumo excessivo de açúcar e bebidas açucaradas favorece ganho de peso, obesidade e diabetes — condições que aumentam significativamente o risco de doença renal.

Para cuidar dos rins, dê preferência à comida de verdade. Mais frutas, verduras, legumes, grãos e alimentos vegetais. Menos sal, carnes processadas, bebidas açucaradas e ultraprocessados.

Quanto mais distante o alimento estiver da sua forma natural, maior deve ser a atenção ao consumo.


Cuidado com automedicação

Os anti-inflamatórios não esteroides, como nimesulida, ibuprofeno, diclofenaco, naproxeno e cetoprofeno, estão entre os medicamentos que merecem maior atenção quando falamos em saúde dos rins. O uso desses anti-inflamatórios pode provocar queda aguda da função renal, retenção de líquidos, aumento da pressão arterial e alterações do potássio.

O risco é maior em pessoas com doença renal crônica, idosos, pacientes com insuficiência cardíaca ou cirrose e durante períodos de desidratação, como em episódios de vômitos ou diarreia.

Além dos anti-inflamatórios, existem outros medicamentos e substâncias potencialmente nefrotóxicos, ou seja, capazes de prejudicar os rins em determinadas circunstâncias. Alguns antibióticos, certos medicamentos utilizados no tratamento do câncer e imunossupressores são exemplos. Até produtos vendidos como “naturais”, suplementos e fórmulas manipuladas podem conter substâncias capazes de causar lesão renal. Isso não significa que esses tratamentos nunca devam ser utilizados: muitos são importantes e necessários.

O fundamental é evitar a automedicação e, principalmente em pessoas que já apresentam doença renal, avaliar se o medicamento é realmente necessário, ajustar sua dose quando indicado e monitorar a função dos rins durante o tratamento.


Anabolizantes: um risco real

O uso de esteroides anabolizantes para ganho de massa muscular e melhora do desempenho físico pode trazer riscos importantes para os rins, principalmente quando utilizados em doses elevadas e sem acompanhamento médico.

Estudos e relatos clínicos associam o uso prolongado dessas substâncias ao aumento da pressão arterial, alterações metabólicas, aumento da sobrecarga de filtração dos rins e aparecimento de proteína na urina, um importante sinal de lesão renal.

Por isso, o uso de anabolizantes com finalidade estética ou de desempenho não deve ser considerado inofensivo: o aumento da massa muscular pode vir acompanhado de consequências silenciosas para a saúde renal.


Cuidar dos rins é uma construção diária

Nem todas as causas de doença renal podem ser prevenidas, mas muitos dos fatores que contribuem para o desenvolvimento e a progressão da doença renal crônica podem ser modificados.

Manter uma rotina de atividade física, controlar o peso, priorizar uma alimentação equilibrada e com poucos alimentos ultraprocessados e evitar o uso indiscriminado de medicamentos potencialmente prejudiciais aos rins, como os anti-inflamatórios, são atitudes que fazem parte da proteção da saúde renal. Da mesma forma, o uso de anabolizantes para fins estéticos ou de desempenho pode trazer riscos importantes e não deve ser encarado como uma prática inofensiva.

Para quem já apresenta fatores de risco — como hipertensão, diabetes, obesidade ou histórico familiar de doença renal — ou já possui alguma alteração nos rins, o acompanhamento médico permite identificar problemas precocemente e estabelecer estratégias individualizadas para reduzir o risco de progressão da doença renal.


Fontes

  1. Exercise for Primary and Secondary Prevention of Cardiovascular Disease: JACC Focus Seminar
  2. KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of CKD.
  3. Herlitz et al., JASN, 2010 — “Development of Focal Segmental Glomerulosclerosis after Anabolic Steroid Abuse”.

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui consulta médica individualizada.

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